Há décadas não se viam os peixes dos Canais de Veneza.

Há décadas não se respirava um ar tão puro nas grandes metrópoles. Há décadas pais não ficavam tanto com os filhos. Algo nessa roda viva estava errado. A resposta mais comum que eu ouvia ao perguntar “como esta?” era “tamo na correria”.

Correria, a vida é uma correria. Que polui mares e ares e que não deixa ver o filho crescer. Faz quinze dias que, quando pergunto pra alguém como esta a vida, a pessoa não diz “tamo na correria”. Porque, por mais que nosso desejo seja voltar à ela, nós não estamos mais na correria, o tempo das coisas mudou.

A natureza esta mais verde, o afeto esta mais presente. O fogão de casa nunca trabalhou tano. Mesmo assim, inconscientemente, queremos tudo como era antes, a correria, quem diria, é nossa zona de conforto, não sabemos o que fazer sem ela.

Difícil prever a vida nos próximos seis meses. A gente não conhece outra forma de vida. Normal pra gente é correria, logo, quando tudo isso passar e voltar ao normal, a gente já sabe a vida que vamos levar. Alguns apostam em um novo formato, acreditam que pessoas vão sair menos e vão mudar permanentemente seus hábitos.

Eu sou mais cético. Não que eu queira aqui fazer previsões, me sinto despreparado pra isso, mas eu conheço a cepa humana. Quer ver? Sabe aquele teu amigo que foi pro Tibet, passou 15 dias em silencio num templo budista e, quando voltou, prometeu que ia mudar de vida?

Quantos dias aquela mudança durou? Aposto que em pouco tempo ele foi engolido pela correria do dia a dia. Sua maneira evoluída de ver o mundo virou piada nas rodinhas e o neo monge se rendeu ao poder do cruel mundo competitivo. Uma pena.

Mas, acima de tudo, o homem é um ser sociável. Nada que nos permite ficar em casa durante a quarentena é novidade. Os celulares já estavam aí, os deliverys já estavam aí, os netflix já estavam aí, e o homeoffice, também, já era velho conhecido nosso.

Fico impressionado todas as noites quando passava pela esquina da Prudente de Morais com a Carlos de Carvalho. Centenas de jovens se amontoam pelas ruas e calçadas pra trocar calor humano. São de uma geração mais nova que a minha, têm acesso a qualquer tecnologia imaginável disponível, têm consciência aguçada sobre consumo, querem viver num planeta melhor. Estão fechados em casa? Não. Estão pelas ruas. Eu amo ver aquilo. A vida pulsa quando as pessoas se encontram.

De novo, não estou aqui pra fazer previsões. Mas, de repente, posso externar meu desejo para o pós crise. Que tal uma terceira via? Uma alternativa que contemple a troca de abraços nos bares e calçadas, o convívio com a família, e o consumo consciente de verdade, que nos deixe ver para sempre os peixes dos Canais de Veneza?

Beto Madalosso

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