Francisco, um mineiro
Talvez você não tenha ouvido falar em Francisco Augusto Mesquita Gonçalves. Por outro lado, certamente está familiarizado com o apelido deste profissional: Chico Queijo.
Filho de Acary João e de Ana Rosa, natural de Belo Horizonte, o Chico é o mais velho de quatro irmãos. Depois dele, vieram três meninas. Formado em direito, por 16 anos – até 2018 – atuou como advogado. Depois disso, numa “guinada” pessoal, decidiu pesquisar e trabalhar com a verdadeira paixão, os queijos. Em 2012, então casado com a mãe dos dois filhos, Fernanda, morando em Curitiba e trabalhando em um escritório de advocacia curitibano, começou a cozinhar em casa. Na firma, tornou-se sócio e chegou a comandar 30 advogados. Nesta época, sempre que ia visitar a família em BH, voltava com meia dúzia de peças de queijo. “Comecei a ficar curioso por aquele alimento vivo que mudava sem intervenção direta” – relembra o Chico. A relação com o campo, porém, remonta à adolescência.
Belo Horizonte – Itaguara-MG
No início dos anos 90, os pais – João e Ana Rosa – se transferiram para o sítio da família, a quase 100km da capital mineira. Durante quatro meses, o jovem Chico aprendeu a cuidar de horta, dos animais, da ordenha, a nadar e pescar no rio e viver a cultura da subsistência. Não havia eletricidade no sítio Santa Sofia e ele entendeu, na prática, como é a cultura de subsistência. “Mas não havia planejamento. Coisas da minha mãe, sou muito como ela. Planejo mentalmente, meto o peito e faço”.
A família voltou para a cidade, dessa vez para a pequena Itaguara-MG, onde o Chico cursou o ensino médio e se revezava, além da escola, entre os “bailes” locais e a Padaria João Padeiro, do pai. Ali, foi auxiliar de padeiro. Findo o ensino médio, Chico voltou sozinho para Belo Horizonte, onde morou em república e estudou para passar no curso de direito.
Belo Horizonte – Curitiba
Avançando de novo no tempo, o Chico se casou com a dentista Fernanda, com quem permaneceu por quase 27 anos e teve o casal de filhos: Manuela, de 15 anos, e Antonio, que vai completar 10. Foi a partir de meados de 2012, durante as viagens entre Curitiba e BH, que ele passou a frequentar as lojas de queijos.
Além das peças “meia-cura” que garimpava no Mercado Central de Belo Horizonte, A Queijaria (SP) e Roça Capital (BH), se tornaram dois destinos de referência para o aprendiz de queijeiro. A questão crucial, que inspirou estas linhas, é que o Francisco Augusto foi garimpar para muito além. O primogênito da Dona Ana Rosa saiu a ela. A vida, para ele, não é uma lagoa de água parada. Ainda moleque, aprendeu a “sujar a lagoa”, ou remexer o fundo para os peixes subirem. Era assim que a molecada pescava em Itaguara. Adulto, metaforicamente, ele nunca cessou de remexer a lagoa.
O circuito queijeiro
No começo de 2019, dirigiu até a Serra da Canastra-MG. Planejou passar dois dias, ficou cinco. Sobre uma moto, dividiu o tempo entre visitar os produtores de queijo e conhecer as belezas naturais. Ao visitar a Cachoeira do Cerradão, errou o caminho e foi parar na parte alta da queda. Lá, por obra do acaso, conheceu a Queijaria Matinha do Ouro. Foi recebido pelo Otinho, dono da propriedade. Depois de pagar a taxa e olhar o cume da cachoeira – Proibido entrar na água! – pediu para conhecer a produção e foi convidado para dentro da cozinha. “Mineiro quando convida pra cozinha, danou-se, é porque o santo bateu” – esclareceu o Chico. Ali mesmo, na Queijaria Matinha de Ouro, na parte alta da Cerradão, o Francisco Augusto começou a maturar para se tornar o Chico Queijo.
A formação do profissional
Outro investimento na nova carreira foi o curso que realizou na Queijaria Pingo do Mula. Ali estudou conceitos como logística e precificação. Começou a visitar outros produtores e vender queijos de Minas e São Paulo para os amigos.
Ainda em 2019, percorreu mais de seis mil quilômetros, por doze dias, visitando produtores e comprando queijos. De Curitiba, foi a Registro conhecer a produção de queijo de búfala. Também esteve com produtores em Rio Claro, Itpetininga, Amparo, na Fazenda Atalaia, berço do Tulha, primeiro queijo brasileiro a ganhar medalha em concurso internacional. Depois, seguiu para as principais regiões queijeiras de Minas Gerais: Mantiqueira, Campos das Vertentes, Serro, Serra do Salitre, Cerrado Mineito, Canastra e Belo Horizonte. Voltou a Curitiba com dois carros carregados de queijo. Aqui, terminou de criar a marca e, na véspera do dia das mães, em 2019, começou a vender queijo como Chico Queijo.
Fazendo amigos
O negócio se provou lucrativo desde o início. O Chico teve ajuda de amigos que tiveram papel importante e o ajudaram a escalar as vendas. Ainda sem loja física, canais de distribuição como o Moka Clube viabilizaram o negócio ainda mais. Vendeu muito no Moka Clube. A consultora Thays Ferrão apresentou pessoas e projetos. A jornalista Jussara Voss o desafiou a encontrar, conhecer e impulsionar os queijos paranaenses. “Tenho muitos clientes na carteira por causa deles.”- revela Chico Queijo.
Feiras e eventos
Na pré-pandemia, ele vendia no Moka Club e através de listas de transmissão, rede social e eventos. No Fórum Tutano daquele ano, conseguiu reunir um bom network. Conheceu vários chefs de cozinha renomados e o Oscar Iroldi, da La Panoteca, que o levou para a Expo Saudável, na Universidade Positivo.
Foi na Expo Saudável que o Chico Queijo montou a mesa de queijos paranaenses, encomenda para o coffee break do curso de panificação. Dos queijos que ele levou, cinco ganharam prêmios no V Prêmio Queijo Brasil, maior concurso nacional de queijos artesanais, sendo que dois ganharam ouro. Vieram, então, a Vinopar – primeira feira onde vendeu queijos – e os inúmeros eventos de harmonização que segue participando até hoje.
Tempos pandêmicos e a loja física
Veio a pandemia. Desafio para a maior parte da cadeia gastronômica, o Chico Queijo a transformou em oportunidade. “Foi uma virada de chave e passei a vender cinco vezes mais para o consumidor direto porque as pessoas ficavam em casa” – contabiliza. Nesta fase, alguns criadores de conteúdo com perfis nas redes sociais ajudaram a alavancar as vendas.
Em julho de 2020 alugou o ponto e realizou as obras da loja física. Em dezembro do mesmo ano, abriu a Chico Queijos Artesanais, passando para trás do balcão para vender queijos Brasileiros, além de outros produtos como doces, vinhos, cerveja, pães, charcutarias, cafés e cachaças especiais. Em janeiro de 2021, inaugurou a loja oficialmente, entre bandeiras vermelhas e amarelas emitidas pela Secretaria de Saúde. Frequentemente de portas fechadas, a solução era atender com hora marcada e todos os protocolos sanitários observados.
Os sócios
Nem tudo foram flores, mas o Chico sempre manteve a cabeça para fora da lagoa. Em meados de 2024 captou três novos investidores. Todos empreendedores na gastronomia, com visão estratégica, foi questão de meses até que o negócio dobrasse o faturamento.
Atualmente, sob este novo modelo, a Chico Queijos Artesanais, visão que um mineiro teve do alto de uma cachoeira, segue crescendo saudável, cada dia mais promissora. O Chico segue fazendo as viagens para encontrar os melhores produtores de queijos do Brasil.
Muita coisa mudou da época que o garoto mergulhava na lagoa para remexer o fundo, fazer os peixes emergirem para a festa da molecada. Quase tudo. Mas o menino ainda vive dentro do adulto. Talvez dele toda a vivacidade e o carisma que brotam do Chico Queijo. É como se Chico e o jovem Francisco dividissem o balcão que é um verdadeiro universo queijeiro. Ele fica dentro da loja na Atílio Bório, Juvevê, Curitiba. Ali o Chico, ou Francisco, recebem cada cliente com ouvidos atentos para indicarem produtos únicos. Eles narram histórias e contam sobre as procedências destes produtos com DNA próprios, queijos são seres vivos que merecem cada ritual e deferência.
Uma incursão à Chico Queijos Artesanais será uma experiência plena se o visitante tomar uma taça de vinho, um café com prosa mineira ou, naturalmente, roer uns pedaços de queijo.
Serviço
Chico Queijos Artesanais
Endereço: Rua Atilio Borio 1531 – Juvevê – Cutritiba/PR
Telefones: (41) 99915-1002 / (41) 99181-9521
Horários atendimento: Segunda a sexta 10:00 as 19:00 hs / Sábado 09:00 as 17:00 hs
Instagram: @chicoqueijo
Facebook: Chico Queijos e Produtos Agroartesanais
Breve descritivo: loja especializada em queijos artesanais brasileiros. Além dos queijos, temos charcutarias artesanais brasileiras e algumas opções importadas, doces, geleias, antepastos, azeites, cafés, cachaças, vinhos e cervejas. Servem tábuas para consumo no local e delivery. Há mesas nos ambientes interno e externo, onde é possível consumir vinhos e outras bebidas para acompanhar nossas tábuas. Fora do horário de atendimento comercial é possível fazer reservas do espaço interno para reuniões de confraternização de grupos com até 14 / 15 pessoas (confrarias, grupos de amigos, eventos corporativos, eventos fechados).
Vendas no local e delivery (pedidos através do número da loja ou pelo ifood).
